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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Ah, quando eu era pequena.



Quando eu era pequena, gostava de descobrir coisas tolas do mundo. Era uma Amélie Poulain em miniatura.


Passava séculos olhando o relógio digital, esperando pelo pequeno instante em que o número do minuto iria mudar, para ver como se dava a mágica. Ficava ali, os olhos abertos, concentrada na frente do relógio e, estranhamente, no raro instante em que eu piscava, pronto, o número mudava e eu perdia o grande acontecimento. Até hoje não sei como se dá a troca de um dígito para o outro, no relógio.


Quando eu era pequena, e acordava no escuro, sentia muito medo e aflição, porque pensava que poderia ter ficado cega. Quando eu era pequena e acordava no escuro, tratava de procurar uma luzinha qualquer, uma sombra, uma imagem que me mostrasse que minha visão ainda funcionava e ... não, eu não estava cega.


Em compensação, quando eu era pequena e dormia com alguma iluminação, dessas bem fraquinhas que confundem a gente, os móveis e a desorganização do quarto, sempre formavam monstros na minha imaginação.


Quando eu era pequena, deitava no banco de trás do carro e meu corpo não alcançava a outra janela.


Quando eu era pequena, brincava de escolinha, sentava todas as minhas bonecas em uma fila, colava papel sulfite no armário à frente delas e, lá, fazia a minha lousa. Eu era a professora aplicada, a líder exigente, a dona da sala e da situação.


Mas, quando eu era pequena, odiava os adultos que queriam conversar ao telefone e ficavam puxando assunto desnecessário, da mesma forma que odiava quando alguém dizia: Você sabia que é linda?


Eu não entendia bem a pergunta e também não entendia quando me perguntavam se eu tinha dormido bem, porque eu sempre pensava que não poderia saber se foi bem ou mal, eu estava dormindo, oras.


Quando eu era pequena, gostava de tirar casquinha dos meus machucados, gostava de desenho na TV, odiava comercial e salada, mas adorava o gosto doce do nescau no fundo do copo.


Quando eu era pequena dançava na frente do espelho, chorava na frente do espelho, fazia poses e caretas ridículas na frente do espelho, como se meu mundo fosse aquele, minha própria imagem refletida diante de mim.


Eu estava me reconhecendo, descobrindo minhas facetas, minhas lágrimas e meus risos. Eu estava tentando descobrir quem era e, hoje, olhando para trás, noto que nunca consegui. A não ser quando não sabia, e fazia xixi de tanto rir por qualquer tolice.


Ah, quando eu era pequena...


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