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sábado, 31 de julho de 2010

Em meio a essa insanidade toda dos meus dias, é no aconchego clandestino dos teus braços que meu céu se torna multicolorido a cada noite...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A vida, às vezes, é tão intensa que nem precisa fazer sentido.

É isso


Às vezes na estranha tentativa de nos protegermos da suposta visita da dor, soltamos os cães. Apagamos as luzes. Fechamos as cortinas. Trancamos as portas com chaves, cadeados e medos. Ficamos quietinhos, poucos movimentos, nesse lugar escuro e pouco arejado, para a vida não desconfiar que estamos em casa. A encrenca é que, ao nos defendermos tanto da possibilidade da dor, acabamos nos privando também da possibilidade de lindas alegrias. Impossível saber o que a vida pode nos trazer a qualquer instante, não há como adivinhar se fugirmos do contato com ela, se não abrirmos a porta. Não há como adivinhar e, se é isso que nos assusta tanto, é isso também que nos dá esperança.


É maravilhoso quando conseguimos soltar um pouco o nosso medo e passamos a desfrutar a preciosa oportunidade de viver com o coração aberto, capaz de sentir a textura de cada experiência, no tempo de cada uma. Sem estarmos enclausurados em nós mesmos, é certo que aumentamos as chances de sentir um monte de coisas, agradáveis ou não, mas o melhor de tudo, é que aumentamos as chances de sentir que estamos vivos. Podemos demorar bastante para perceber o óbvio: coração fechado já é dor, por natureza, e não garante nada, além de aperto e emoções mofadas. É, "não se pode ter paz evitando a vida".

terça-feira, 27 de julho de 2010

o conto da violeta


Violeta não sabia se relacionar com outras flores, por isso nunca era vista em jardins. Era má e, portanto, estava condenada a passar o fim de seus dias sozinha, isolada em seu vasinho.


Fim.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Shrek desperta romantismo


Ontem fui ao cinema com meus pais para assistir a Shrek Para Sempre, e pelas risadas deles, posso dizer que as críticas em relação ao filme não devem ser tão dignas de considerações relevantes. Nós nos divertimos muito. É sempre muito prazeroso olhar dissimuladamente para meus pais - de mãos dadas no cinema (é o ápice do romantismo) e rindo feito crianças -, é sério.
Sim, pode ser piegas para alguns, mas mãos dadas são de um valor inestimável para essa pessoa aqui. Eu fico inteiramente estupefata observando meus pais trocarem tanto afeto mesmo diante de inúmeras situações caóticas do nosso inescrupuloso mundo, manter um espírito ávido e de uma pureza ingênua me faz perceber o que realmente importa. Sim, amor que é amor está representado por algo muito mais simples, sutil, barato e íntimo: os dedos entrelaçados no escuro do cinema. De mãos dadas se constrói uma relação. É esta forma brejeira de intimidade que falta nas atuais relações: dar-se as mãos. A mais tórrida aproximação de corpos, um ato realmente subversivo para alguns: unir as mãos como dois namorados. Está distante de ser uma representação pública de amor, é um carinho privado, ninguém está testemunhando (só eu, claro, mas eles não sabem), as pessoas estão todas de olho na tela e meus pais também, contudo seguros um no outro por meio do enlace que, à luz do dia, seria pra lá de corriqueiro, um simples hábito sem maior significância, mas que em um ambiente dividido com estranhos, no escuro, torna-se uma forma particular e um flerte irresistível de cumplicidade. Esse gesto mundano e trivial, quando perdido, quando não mais é feito, é porque o amor se findou e o casal não foi avisado. Confesso que fico derretida quando vejo mão entrelaçadas, é a declaração mais terna e espontânea.
Ah, preciso falar do filme. Estava empolgada com o namorico de meus pais, mas vamos relatar o meu divertimento de domingo. Crise de meia idade? É, ela não poupa nem ogros. Depois de três filmes, nos quais Shrek troca sua liberdade - leia-se faculdade de fazer ou de não fazer qualquer coisa, o que pactua mais adequadamente com nosso querido ogro - por mulher, filhos e responsabilidades Shrek chega a Shrek Para Sempre, com dificuldades de se reconhecer. Para sorte do monstro ( e de seus roteiristas preguiçosos), Frank Capra inventou a solução para esse tipo de problema mais de sessenta anos atrás, com A Felicidade Não Se Compra. Graças a um acordo com o duende Rumpelstiltskin, o protagonista ganha 24 horas para reviver seus tempos de solteirão - e também para descobrir que o reino Tão Tão Distante - seria horrível se ele jamais tivesse existido. Um filme que trata do passado de Shrek, uma maneira triste de um ogro adorável se despedir, pois é o último filme, como muitos já sabem. Neste lastimável mundo 'novo', você vai se deliciar com o Gato de Botas gordo e mimado, além do já conhecido sotaque espanhol canastrão, um burro que nunca se apaixonou pelo dragão fêmea, ah, vamos falar dragoa mesmo, é mais divertido; e Fiona, solitária, guerreira e lidera um bando de ogros rebeldes. Temos até um ogro gay e que cozinha tapioca, achei ultramoderno, uma ironia pop. Então, o ogro tem que corrigir os erros e voltar ao normal tentado resgatar o amor de sua antiga esposa Fiona.
A premissa é ótima, as piadas foram interessantes, mas as melhores realmente ficaram por conta da interação com personagens secundários como Gato e o Burro. A despedida do grande ogro não é tão apoteótica, é mais melancólica, porém ele sempre será o maioral. Eu recomendo, aliás recomendaria quantos filmes fossem produzidos com Shrek, que agora desperta aventuras romanescas entre meus pais.

domingo, 25 de julho de 2010

[É tudo o que sinto] - Paulo Leminsk

Inverno

É tudo o que sinto

Viver

É sucinto

das divagações

Escutando músicas francesas, quase cordial não é mesmo, Karinni? Explorando sons diferentes, buscando sentimentos.
Só você mesmo, querendo ser serena e generosa, não sei, mas há em você um lado pueril que não cresce jamais.
Nada posso dizer. Vou saindo à francesa...

Sobre palavras, sobre domínio


Lapidar a palavra exige constantes adaptações, pois ela constitui a forma mais singela de exacerbar valores e sentimentos, o homem como um todo deve possuir decoro ao transmitir seus pensamentos, tendo percepção do quão uma palavra se carrega de importância ao despertar vivências esquecidas, ou até mesmo moldar o ser humano.


Monteiro Lobato já exprimia que um país se faz de homens e livros, verdade incontestável! Uma sociedade plural é muito melhor do que uma sociedade em que todos pensam igual. Há uma necessidade de divergência, de diálogo, de escrita acima de tudo, expondo as divagações que permeiam a complexa mente humana. Somente desse modo o pensamento e o país evoluem, daí a funcionalidade das palavras.


Transportando-se historicamente, é evidente a evolução da linguagem/palavra, como inerente a própria evolução do âmbito social. Com o aceleramento de todo o processo tecnológico houve a perda da capacidade de compreensão e análise do quão genuíno é o poder da comunicação. O mundo se transformou em um ambiente de superficialidades bestas, as culturas não possuem mais a interação face a face. Oh, doce pretensão! É a inversão, não a térmica, muito pior, a de valores sociais.


As pessoas têm medo de ousar e transmitir ideias ao mundo, têm medo da palavra, esta que mostra o homem ao planeta e que apresenta o universo ao homem, esta que desperta para novas possibilidades de ser humano - o que não é pura anatomia -, esta que promove integração e enriquecimento.


Habilitada para traduzir o que se descortina diante dos olhos humanos , refletindo sobre as diversificadas faces e tradições, a palavra é a base, o alicerce para o desenvolvimento e a miscigenação de povos. Portanto viver não consiste em apenas respirar, se René Descartes estiver certo, é necessário pensar e comunicar - compartilhando por meio das palavras -,divagando e expondo todo o saber que habita o ser, assim podemos reverter situações caóticas da atualidade, pelo menos em parte, podemos potencializar sentimentos e a essência das pessoas. Contudo é fundamental escrever, falar, agir, pois este é nosso domínio sobre o mundo.

sábado, 24 de julho de 2010




A carência. A dúvida. A vontade. O desejo. O padrão. O medo. O coração. O cérebro. O passado. O futuro. As diferenças. As semelhanças. As vantagens. As desvantagens. A insegurança. O frio. O calor. As fotos. As comparações. O beijo. Os outros. As outras. O convite. O gosto. O cheiro. A experiência. O antes. O depois. O vazio. O vácuo. A pele. Os olhos. As palavras.






O choro.




Nada de novo debaixo do sol.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Ó céus, descobri que sou uma insana, prendada. Verborrágica, viciada em filmes e livros. Colecionadora de canecas e compulsiva por esmaltes. Obsoleta.

As comédias românticas que arruinam a minha, a sua, a nossa vida.


Trata-se de um assunto que foi previamente estudado e foi matéria na BBC, sim, você não leu errado não!
Assim, adoro esses estudos que gastam tempo e dinheiro em pesquisas para atestar o óbvio. Muito maduro realmente.
Então eu fiquei aqui pensando sobre a lista de filmes divulgada e que poderiam ser responsáveis por arruinar a minha concepção de romance e me fazer estar solteira - não que isso não me agrade - esperando um 'príncipe' nerd encantado.
Sem descrições muito profundas porque eu teria que assistir a todos eles para postar mais adequadamente. Mas como minha vida afetiva é desastrosa e eu não tenho talento algum para relacionamentos - chupar cana e assobiar ao mesmo tempo é muito mais fácil -, se eu assistir a todos esses filmes de uma vez, meu pâncreas entra em colapso nervoso. Mas vamos a lista então!

Mensagem Para Você - relacionamentos virtuais, a tensão do modem conectado. Filme de 1998, uma relíquia, há mais de uma década já existiam esses problemas de vida cibernética, acredite.
O Diário de Bridget Jones - admita: no mundo real dois caras lindos e com sotaque sexy não vão brigar por você no meio da rua, especialmente se você é louca, atrapalhada e está acima do peso.

De repente é amor - e de repente eu acho que todo relacionamento precisa começar com uma amizade profunda e verdadeira.

Minha Mãe Quer Que Eu Case - motivo pelo qual a inclusão digital não chegou na minha mãe. Já tenho colegas demais tentando me desencalhar, fora que mamãe fazendo cupido já está virando clichê.
Sem Reservas - desde quando aquele cara que aparece para ser seu concorrente no trabalho é lindo, engraçado, fofo e manda bem nas sobremesas?

Além é claro de: Letra e Música, Abaixo o Amor, Muito Bem Acompanhada...

E muitos outros dispostos a causarem danos psicológicos graves!

Quem sabe nos trinta eu me arranje, afinal, dizem que trinta é a idade do sucesso.

Meio patético admitir, mas geralmente Garfield Minus Garfield costuma definir a minha vida, mas essa aí de cima, em especial, foi uma facada no fígado.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

inverno

E finalmente ter um notebook faz todo o sentido do mundo: poder ler, escrever e fuçar na internet com esse trambolho quentinho no colo num dia gelado enquanto eu quase desapareço embaixo do edredom.
Só faltou um capuccino, que eu teria feito se estivesse mais disposta.

Fiquei com o dia em estado de graça


Hoje eu tive o prazer de ouvir a palestra da escritora Isabel Allende, e pude conferir como é realmente bacana ver uma mulher defender o direito de outras mulheres, e fazer isso com muito bom humor e comoção ao mesmo tempo. Simplesmente fantástico!

Leia no rosto dela como ela acredita no que está dizendo, ouça a voz emocionada e repare no seu informalismo mesmo diante de uma plateia de intelectuais. Tire vinte minutos e assista.

Bom, mas muito mais do que vender o peixe de quem nem precisa que eu faça isso, eu queria dizer que, essa mulher me chamou a atenção por uma característica, que é a humildade. Andei pesquisando nos googles da vida, claro! E só o que quero elucidar é que, muito antes de ser escritora, ela é uma pessoa que vai à padaria, vai ao cinema, acorda cedo na segunda, fica de mau humor e tudo mais, exatamente assim como eu, você e qualquer outra pessoa. A diferença está apenas no fato de que ela ama tanto fazer algo e faz tão bem que é reconhecida por outras pessoas, além de seus amigos, mãe e avó.

A realidade que vivemos hoje é tão cheia de informação, somos bombardeados diariamente, e é uma realidade onde o glamour, a fama e a beleza a qualquer custo são tão cultuados que acabamos esquecendo o quão belo é simplesmente ser simples. E foi essa artista da vida diária que me fez lembrar disso.

O mundo virtual tem coisas boas, lógico. Aí está uma delas:




Ela fala sobre criatividade, feminismo, mulheres e paixão. Que tal uma xícara de café agora para acompanhar? Aproveite!


Amora.


Feminino de amor.
Mais amor ainda.

terça-feira, 20 de julho de 2010

esse é o segredo

Se alguém me perguntar o momento em que comecei a sentir a minha vida mais empolgante e interessante, eu tenho a resposta bem aqui na ponta da língua: quando comecei a me interessar mais por mim. E não é egocentrismo. Quando passei a ser mais gentil comigo. A querer me conhecer e entender melhor. A dar menos espaço ao que não tem importância e a respeitar o tamanho do que, de fato, me importa. A ter menos pressa para chegar sei lá onde. A apurar o ouvido para sentir as músicas das sutilezas da vida, que cantam bonito e muitas vezes baixinho. Quando comecei a me enjoar da mania de tentar entender tanto e abri o coração para apreciar mais. Quando comecei a buscar conforto em estar na minha companhia.
Às vezes, ao acordar, eu me olho no espelho e me digo: Vamos lá, Karinni, fazer o melhor que a gente puder desse dia. Eu estou com você. De uns tempos pra cá, não é que tem sido verdade?


________

Dica da semana: Julie & Julia, um livro de Julie Powell, extremamente irreverente, um festim, uma maravilha. Julie, trinta anos, cansada das pressões profissionais e familares decide mudar a sua vida fazendo comida. Ah, quando digo irreverente, peço que se prepare para a alta dose de palavrões e inconstâncias femininas cotidianas! A autora escreve com uma honestidade explícita, o que realmente dá gosto de ler. Ela mostra os reveses do que é tentar fazer algo de novo com a própria vida. É um livro que recomendo pelo simples fato da descontração! Coloque um camisão, meiões, pegue uma caneca de chocolate quente e divirta-se!

Seja feliz, mulher, loba e louca com e como Julie Powell!

- Recomendo para homens também -

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Domingo




Quando o telefone tocou eu jamais previa que seria Vinilicious - só porque fazia décadas que não te chamava tão carinhosamente bem assim -, não é sempre que meu amigo liga, aliás são raras vezes, contudo ao ouvir sua voz confesso que fui tomada por uma felicidade imensa, sério.

"Ka, é o Vini!"

"Ah, oi Vini, tudo bem?"

Por fim...depois de risos e comentários levemente tolos

"Trattoria hoje a noite?!"

Era uma intimação, jamais um convite.

De noitinha, quando o fim de semana vai dizendo adeus e os dias úteis vão tomando, sorrateiramente, cada um de nossos pensamentos, depois de tempos em que não confraternizávamos, lá estávamos confabulando e tecendo planos para o futuro, como de costume.

Porém ontem havia algo mais que especial, a caderneta de dona Kika, nos vigiando de perto e esperando pelas pérolas fresquinhas, não surgiram muitas, mas como de costume sempre temos psicoses dignas e de dar inveja a todos que, por infelicidade ou não, se sentam próximos de nós. Temos uma genialidade de espírito e como já mencionou meu caro Vinicius em seu blog, nos designamos incumbências absolutamente improváveis, até que possamos realizá-las. Sim, sonhamos em conjunto, afinal, não estamos vegetando, estamos produzindo valores morais (uma das pérolas).

Vivemos momentos nostálgicos, até visitar a Unibave - nossa antiga e célebre escola - nós fomos.

Pelo fato de a velhice precoce ter se instalado à calada em nossos corpos, apesar de fisicamente jovens e mentalmente evoluídos, possuímos um humor refinadíssimo, singular, nos destacamos em meio aos normais de anedotas fracas e má formuladas, gritamos aos ventos e mesmo a Trattoria tendo apoio acústico (outra pérola), importunamos a todos sem exceção, ninguém consegue competir com nossos excessos! Temos o dom de ter as sacadas mais brilhantes e as tiradas mais geniais possíveis. Sim, somos um verdadeiro joker do mundo moderno, com elevado quociente de inteligência humorística e saudosista.

Bingo!

Agora compreendo porque o Domingo é contado como o primeiro dia da semana, passei a ter essa clarividência ontem, o domingo à noite - especialmente com os amigos - é a base de lançamento da semana. É a largada, que bem dada, te deixa com disposição para enfrentar a longa corrida com barreiras que começará na manhã seguinte. Obrigada meus amados amigos!

E é justamente para entender a importância entediante do domingo à noite no equilíbrio geral das coisas, que resolvemos nos reunir. Algumas pizzas e coca-cola - agora na versão Twist - nos fazem ignorar esse tipo de canyon existencial: a segunda late em nossos rostos, a brisa do sábado ainda bate em nossas costas; à frente as preocupações sobre o que faremos daqui cinco anos, vamos ou não morar juntos, fazer moda ou biologia, vamos mesmo conseguir ir à Europa em 2017, ou se seremos boêmios vendedores de sonhos que, nas praças públicas, apregoam ao povo a virtude de seus segredos, explorando a credulidade pública. A dúvida se diremos algo relevante em nossos encontros, ou se só repetiremos velhas bobagens; atrás, a adolescência ainda fresca, aquelas promessas de nunca virar um bocó, ter uma certa estabilidade; talvez até, mais longe ainda, a lembrança inata de outras épocas, em que éramos crianças, pessoas de alma, quando kinder ovo era 1 real e Plutão ainda era um planeta, e tanto fazia se era terça de madrugada ou sábado dez pras nove. Nostalgia...

Às vezes vamos à Trattoria, a gente conversa e se empolga. Fala bem de nossos 'amores', mal de alguns colegas. A gente relembra, frases e poemas, eu falo de alguns livros, a Ana de algumas músicas, Lidia algumas observações inteligentes, e o Vini, ah, ele é o bastante!

Parecemos tão destemidos dizendo 'sim ao eterno', mas também somos tão franzinos, a fotocópia de nossos pais.

Então, já quase de madrugada, a gente fica melancólico. Será que estamos fazendo a coisa certa? Será que não deveríamos ir na direção contrária, deixar de lado alguns compromissos e colocar o mochilão nas costas e abraçar uma outra existência. Depois disso, há um silêncio, mas é porque ninguém sente dor como os poetas.


A lista completa das pérolas e um relato descontraído da noite de ontem, aqui:




domingo, 18 de julho de 2010

no divã


"Ninguém nunca vai me enganar de verdade, eu sou onisciente", revelei ao meu psicanalista.
"O que me torna 1/3 Deus."
"Você se acha Deus?"
"Não, claro que não. Só 0,333333" expliquei. "Dava para fazer uma camiseta e vender na Bahia, 33% Deus."
Silêncio. Ele apenas me encarava, com um sorriso intrigado.
"Devo ser um Deus frustrado, porque sou onisciente mas não posso ser onipresente nem muito menos onipotente."
"Foi por isso que você veio aqui?"
Silêncio.
"Mas eu tenho outros dons. Você acha que Deus escreve?"
"Ele é onipotente."
"Maldito Deus. Será que ele tem blog, orkut, msn, twitter?"
"Ele é onipresente."
"Mas que caralhos?! Ele é seu paciente também?"
"Isso é confidencial."
"Ha! Nem vem, você não me engana. Eu sou onisciente."

sábado, 17 de julho de 2010

Coração inquieto,
Febre alta,
Pálpebras pesadas,
Dor,
Insônia.

Ela se distraiu, e deixou que ele voltasse.
E ele veio.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Só me resta amor platônico



É muito difícil achar gente realmente autêntica hoje em dia.



É tão difícil gostar das pessoas pelo que elas são, sendo que o que elas são, para mim - ultimamente - não tem sido o bastante. Não que eu seja grande coisa, vocês sabem. Nada disso, não me entendam mal. Sei lá eu qual é o meu problema, só sei que acho que não consigo mais me apaixonar perdidamente. Ok, não me desprezem, por favor.
Psicoses à parte, o fato é que eu não consigo mais me apaixonar. Eu acho. E isso ao mesmo tempo que me alivia, é meio que frustrante. A incapacidade de se apaixonar para uma mulher, é quase tão terrível quanto a impotência é para um homem. E, querendo ou não, quase sempre me apaixono pelo o que os garotos são, por mais que eles tenham problemas e defeitos que eu não goste. Quem não os têm? Estou tendo um agora. Grave. Eu relevo tudo em nome do que estou sentido. Mas hoje em dia o que acontece é que - ao que parece - eu coloquei tantas restrições na minha cabeça para poder gostar de alguém efetivamente, que vou acabar terminando sozinha, mesmo. De verdade.
Eu queria passar pela experiência de um outro alguém. E eu nunca vou conseguir explicar essa frase. É difícil mesmo entendê-la, mas acredito que as pessoas que conseguirem é porque me conhecem muito bem, ou porque são muito parecidas comigo de certa forma. Acredito que ninguém vai entender essa frase, mas tudo bem. A vida é assim mesmo, não vou ficar me preocupando. Não sei, não sei mais...
Ultimamente dou mais preferência a tudo que é perene, às coisas certas. Olhando para mim mesma, parece que me tornei uma pessoa muito complicada nesse sentido e não vejo luz no fim do túnel.
Aí eu começo a me repetir, all over again: é muito difícil achar gente autêntica hoje em dia. Todo mundo é um personagem. Todo mundo faz tipo, basta olhar para as pessoas e você enxerga, e é uma chatice isso. E outra: e mais: gente autêntica interessada em mim, ó céus! Riam, por favor. Não existe. Não existirá. Mesmo porque eu devo ser muito da sem graça mesmo. E ainda com essa mania de 'gostar das pessoas pelo que elas são', só me fodo. Desculpe o palavreado, mas é verídico. Por isso digo que vou morrer seca, sozinha mesmo. A maioria dos personagens que eu vejo são irritantemente vazios. É muito ruim, por isso a predileção pela solidão.
Não sei explicar com palavras direito, elas ficam me faltando. Pela primeira vez na vida me sinto desajeitada demais para falar disso, uma verdadeira troglodita nesse sentido. Cansei de olhar as pessoas. De ficar analisando e tentar compreender, tentar ser compreensiva, tentar ser legal e ter paciência com tudo e com todos. Cansei de entendê-las. Quero alguém que não fique exigindo demais as coisas de mim. Alguém com quem eu não precise conversar e mesmo assim a pessoa me entenda, fique na dela e não pergunte 'o que há?'. Quero alguém independente o suficiente, que não precise de mim, que aceite a minha ausência, que se acostume com meu jeito contraditório, com a minha inconstância, com o que eu sou e já não sou mais (e isso tudo muda em questão de segundos).
E aí eu fico idiota, idealizando, querendo coisas que não existem e criando expectativas acerca disso tudo e termino, claro, sozinha. Não que isso seja um problema, ainda. Ok, talvez seja mesmo, mas daqui uns anos ou melhora, ou piora de vez.
O negócio é o seguinte: vou voltar a ter amores platônicos, que nem quando eu tinha treze anos. Vou retroceder, só para fugir desse tédio sentimentalista no qual me encontro. Pelo menos eu sei que meus amores platônicos nunca serão correspondidos e nunca irão acontecer. Não existe expectativa. Mais seguro assim. E eles só irão embora quando eu enjoar da cara deles ou algo assim.

Sad. But true.

Bom dia

Acordei leve feito ultra leve,
acordei besta de sorrir sem motivo,
acordei feliz de ser e de estar,
acordei pronta para cantar,
acordei assim descabelada e desconcertada,
reparei, respirei.


quinta-feira, 15 de julho de 2010

reparando

Oh, preguiça e algumas dúvidas se apoderam do meu frágil corpo,
não aquela preguiça que te deixa prostrada em qualquer canto, entregue a qualquer sorte,
mas um pouco vagarosa com as vontades do coração.

Às vezes eu sinto falta de quando eu era um pouco menos esperta e bem mais apaixonada. É sério.


terça-feira, 13 de julho de 2010

Do cotidiano

Cubro-me toda já que o frio chegou.
Faço uma reza assim bem ligeira para meu Deus não me esquecer.
Penso um pouco, lembro do outro, encosto o travesseiro contra meu peito.
Fecho meus olhos com leve sensação de sonhar.
Junto meus pés gelados, arrumo o cabelo, que anda crescendo demais.
Agora já vejo meu sono chegar, fico tranquila, apesar de aflita.
E eu digo: Oh, meu Deus, reorganize minhas ideias, refresque meus pensamentos, estique meu tempo.
E Ele contesta: Deixe de ser tão menina, junte suas tralhas e esconda em um baú, deixe de ser tão jacu.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Ah, quando eu era pequena.



Quando eu era pequena, gostava de descobrir coisas tolas do mundo. Era uma Amélie Poulain em miniatura.


Passava séculos olhando o relógio digital, esperando pelo pequeno instante em que o número do minuto iria mudar, para ver como se dava a mágica. Ficava ali, os olhos abertos, concentrada na frente do relógio e, estranhamente, no raro instante em que eu piscava, pronto, o número mudava e eu perdia o grande acontecimento. Até hoje não sei como se dá a troca de um dígito para o outro, no relógio.


Quando eu era pequena, e acordava no escuro, sentia muito medo e aflição, porque pensava que poderia ter ficado cega. Quando eu era pequena e acordava no escuro, tratava de procurar uma luzinha qualquer, uma sombra, uma imagem que me mostrasse que minha visão ainda funcionava e ... não, eu não estava cega.


Em compensação, quando eu era pequena e dormia com alguma iluminação, dessas bem fraquinhas que confundem a gente, os móveis e a desorganização do quarto, sempre formavam monstros na minha imaginação.


Quando eu era pequena, deitava no banco de trás do carro e meu corpo não alcançava a outra janela.


Quando eu era pequena, brincava de escolinha, sentava todas as minhas bonecas em uma fila, colava papel sulfite no armário à frente delas e, lá, fazia a minha lousa. Eu era a professora aplicada, a líder exigente, a dona da sala e da situação.


Mas, quando eu era pequena, odiava os adultos que queriam conversar ao telefone e ficavam puxando assunto desnecessário, da mesma forma que odiava quando alguém dizia: Você sabia que é linda?


Eu não entendia bem a pergunta e também não entendia quando me perguntavam se eu tinha dormido bem, porque eu sempre pensava que não poderia saber se foi bem ou mal, eu estava dormindo, oras.


Quando eu era pequena, gostava de tirar casquinha dos meus machucados, gostava de desenho na TV, odiava comercial e salada, mas adorava o gosto doce do nescau no fundo do copo.


Quando eu era pequena dançava na frente do espelho, chorava na frente do espelho, fazia poses e caretas ridículas na frente do espelho, como se meu mundo fosse aquele, minha própria imagem refletida diante de mim.


Eu estava me reconhecendo, descobrindo minhas facetas, minhas lágrimas e meus risos. Eu estava tentando descobrir quem era e, hoje, olhando para trás, noto que nunca consegui. A não ser quando não sabia, e fazia xixi de tanto rir por qualquer tolice.


Ah, quando eu era pequena...


tenho um silêncio que grita muito dentro de mim.

domingo, 11 de julho de 2010

Sensibilidade


Sou dessa leva de gente que tem como sina ver demais. Sentir demais. Amar quase do tamanho do amor. Traço de nascença, uma estranha dádiva.

Alguns sentem vida, sentem amor, sentem beleza, com doses de conta-gotas. Eu, não: é uma chuvarada dentro de mim. Que os sensíveis também sejam protegidos. Que sejam protegidos todos aqueles que veem além das aparências. Todos os que ouvem bem pra lá de qualquer palavra. Todos os que bordam maciez no tecido áspero do cotidiano. Todos os de alma.

Que me desculpem os apáticos: não tenho medo de sentir, eu sinto muito.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Conflito interno


É, estava eu aqui surtando mais uma vez, como de costume. Bom, por mais que as pessoas te motivem e digam "relaxa, tudo acaba dando certo", eu de fato não acredito. Não importa a opinião alheia nesses momentos, primeiros encontros são um massacre, não sei para vocês homens, mas para nós mulheres é torturante. Sim, somos psicóticas!

Eu não frequento esse evento há muitos anos, mas já posso garantir que apesar do pouco tempo e da minha inexperiente experiência, certas coisas nunca mudam.

Ter um primeiro encontro é frustrante, é como abrir a porta dos desesperados, é conflituoso, insano, aflitivo, é a confirmação de uma hipótese.

E eu, acostumada a sofrer por antecipação, o desastre já inicia antes mesmo do momento em que sei que a data será estabelecida. É maçante, e as psicoses aumentam conforme o dia se aproxima. Penoso para o volúvel universo feminino!

Conformem-se garotas, nunca teremos o que vestir, nosso cabelo não vai colaborar, todos entendem de moda naquele dia menos vocês, a bolsa e os sapatos jamais estarão em harmonia, estaremos sempre gordas, que merda, por que bulhufas marquei isso?

Respira, conta até dez, respira!

Daí chegamos no lugar sempre nos sentindo nojentas, suadas, despenteadas, toda nervosa e com vontade de sair correndo e gritando para confirmar o fato de que realmente nem nós nos entendemos. Mas isso é para os fracos! Basta se recompor e não descer do salto.

Daí em diante é o festival da vergonha alheia. Dois estranhos - com o intuito de 'se pegar' -, mas não podem admitir isso inicialmente.

Há um show de comentários e questionários patéticos e isso pode levar horas até que tudo se torne mais espontâneo.

Há grandes chances de o primeiro encontro ser bem sucedido, mas quando não, tudo o que você precisa fazer é fingir que presta atenção ao que o outro diz, até encontrar a oportunidade de simular uma dor no estômago, ou dor de cabeça. Sorria, eventualmente, e descubra novas chances de quebrar a cara! É FATO!

Elephants, I like elephants...

Vejo humor onde não tem, isso é estranho!

Mas nesse vídeo tem sim um humor refinado e pueril. E me fez rir bastante!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Livro, filme? Vida, simplesmente.


A sua vida daria um livro? Um filme?

Um livro eu sei que a de muitas pessoas que eu conheço daria. Isso porque elas fazem questão de me dizer que a vida delas daria um livro, que eu deveria escrever sobre os reveses das suas biografias. A maioria delas fala isso de verdade, querendo mesmo que eu as entreviste e escreva um livro sobre elas, porque acreditam que são sobreviventes.

Algumas delas realmente o são. Outras ainda não sabem o que é viver um experiência valiosa.

Eu gosto de ouvir as histórias que as pessoas têm para contar, e acho que muitas delas dariam sim ótimos romances. Porém confesso que gosto da ideia de, se um dia decidir biografar alguém, que seja uma pessoa pela qual, antes de tudo, eu tenha me apaixonado pela história de vida. Que ouví-la seja também uma experiência de descoberta para mim. E que assim eu possa misturar a prosa da vida dela com a poesia que ela me inspira.

Como eu já disse, eu realmente sou uma boa ouvinte, mas acho que é por invejar um pouco aqueles que vão contando tudo, despudorados que só, querendo mais que as suas palavras sejam publicadas em folhetins. É que, quando se trata do mais profundo do que sinto, da realidade das minhas escolhas, do fundamento das batalhas pessoais que travo, não consigo verbalizar tudo. E quando tento fazê-lo, juro, parece tudo piada, mesmo sendo sério.

Sorte minha conseguir escrever histórias, inventar caras e bocas para os meus pensamentos. Nem sempre essas histórias são as melhores, as mais excitantes, mas ainda assim este é um ótimo exercício de fé, porque nem tudo é meu, nem tudo é inventado, muita coisa é emprestada. E ao me apoderar dessas situações, ou mesmo me inspirar nelas para dar vida a uma das minhas histórias, agradeço profundamente a oportunidade de tê-las conhecido.

E também conheço um e outro, dos quais as vidas, certamente, dariam não apenas um livro, mas também um filme baseado nele. Pessoas tão apaixonadas pela construção de suas histórias, e tão dignas de usufruírem da loucura dos sábios. Aquelas pessoas que o fazem desejar apenas ficar por perto, pode ser em silêncio mesmo, pois a presença delas já diz tudo. Que nos pequenos gestos e cotidianos afazeres promovem uma série de mudanças a sua volta. Não são perfeitas, nem pretendem ser, são inteiras nos seus desejos.

Perguntei a minha afilhada, Isadora, o que ela gostaria de ser quando crescer. Nós, adultos, fazemos esses tipos de perguntas para recebermos respostas graciosas. Porém, minha afilhada me disse, com a maior tranquilidade e certeza da sua resposta, que quer ser adolescente e depois grande quando crescer.

É isso, não quer ser uma adulta, ter uma profissão que encanta logo cedo. Ela quer ser adolescente, não pular etapas, apenas ser.

Talvez aí more o segredo dessas pessoas que dariam livros e filmes. Elas não pulam etapas. Suas vidas são vividas na intensidade e mansidão que lhes cabe. Elas aceitam o que a vida oferece, e então transformam esses acontecimentos em cenas de uma vida que é delas e de ninguém mais. Nem dos livros, tampouco dos filmes.

Vai saber, de repente uma ou duas histórias da sua vida pode dar uma canção, livros ou filmes.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Em casa


Aqui é mais arejado para meu inconstante ser. Não sinto necessidade alguma de ser socialmente aceita, aqui pertenço, de berço. Porque apesar do terror absoluto, eu me sinto completa. Pai, mãe, vó, vô, fogo e alegria. Aqui não sinto necessidade de entender as coisas, tudo se descortina diante de meus olhos. Não pergunto nada e nem preciso responder. O falatório desgastante, geralmente improdutivo, dos pensamentos abre espaço para o sorriso bom de paz. Aqui, os problemas todos continuam a existir, as dores, as pendências, os embaraços, mas assim mesmo eu descanso. As coisas são como podem ser e eu não tento interromper o fluxo. Qualquer tentava parece inútil. Não espero nada, porque tudo o que mais importa já está aqui. Não há felicidade mais pura do que esta, que não depende de nenhuma motivação externa para exalar. Aqui eu relembro a verdadeira textura suave da natureza, perene e inalterável. Aqui posso colher mudas de sol, mesmo quando eu não percebo, me ajudam a clarear os trechos de breu do caminho. Vim aqui pra me buscar porque, para onde quer que eu olhasse, eu não me encontrava. Porque sentia uma saudade tão grande que chegava a doer e, embora persistisse em acreditar que ela reclamava de outras ausências, a verdade é que o tempo inteirinho ela falava da minha falta de mim. Vim aqui me buscar porque percebi que estava muito distante e que a prioridade era eu me trazer de volta. Isso, se quisesse experimentar contentamento. Se quisesse criar espaço, depois de tanto aperto. Se quisesse crescer, para não me surpreender ao me flagrar feliz, para passar a limpo alguns rascunhos. Para ser parecida comigo, para me sentir em casa de novo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Mente calma


Não, hoje não vou me preocupar. Acordei tão cedo e fiquei surpresa com o nevoeiro aqui em Tubarão - coisa que não se vê com frequência - e pude ver os primeiros raios solares refletidos nos vidros das casas e edifícios, dando a eles uma coloração rósea que deixou a minha rua com uma cara diferente da que ela costuma ter. Sei o que significa essa percepção apurada, logo no amanhecer. Designa-se poesia. Havia na minha rua uma poesia discreta. Uma poesia com a qual nossos olhos desacostumaram.

Quando minha mente está calma, serena, eu acesso uma confiança que é descanso e proteção. Uma fé genuína na preciosidade da vida. Sinto que tudo em mim se reorganiza, silenciosamente, o tempo todo. Minha alma recolhida me permite sentir com mais clareza e nitidez a sabedoria que envolve o mundo.

Quero encontrar, sim. Quero ser atraída por essa poesia que rege a vida, eu sei que posso achá-la. Já consigo vê-la na lombadas dos livros dispostos nas estantes errantes, inúmeros, um ao lado do outro, compondo um mosaico de cores e possibilidades. E vejo também na xícara do cafezinho, a louça branca, ao lado do jornal aberto, em cima da mesa, e um copo d'água, os três em colóquio matinal, clássicos do cotidiano. Sim, me disponho a sentir. Ali: a poesia da caixa de fósforo, quietinha, largada no canto da cozinha. Da mulher passando batom na fentre do espelho, fingindo despertar uma superioridade incomum.

A letra caprichada na folha da agenda, onde se descortinam os compromissos do dia. A fila de táxi no ponto, enquanto os motoristas conversam e fumam aguardando os passageiros. O carrinho do supermercado esquecido no estacionamento depois que todos se foram, abandonado na noite. Os cachos negros que estão no chão de um salão mixuruca, onde alguém cortou o cabelo e se arrependeu. A poesia oculta, não é tão oculta assim, ela é dissimulada.

Um varal com roupas puídas, penduradas numa janela de um edifício antigo. A torcida de um estádio explodindo ao ver entrar seu time em campo. Duas adolescentes de cabelos longos cochichando e rindo à saída do cursinho. O olhar perdido da mulher dentro do ônibus. Um guarda-chuva preto. Sua amiga que piscou o olho pra você lá do outro lado da festa, o afeto atravessando o salão e desviando dos convidados que separam vocês duas. A chama da vela que balança porque você está gargalhando. O casal que caminha na noite escura, agasalhados e agarrados, achando que ninguém os vê. Um resto de bolo dentro da geladeira.

O canhoto do cartão de embarque no fundo da bolsa. A almofada que caiu do sofá da varanda por causa do vento. O vento no rosto. O vapor que embaçou o espelho do banheiro depois do banho. A mochila em cima da cama. Alguém dormindo. Um colo para recostar. Um afago. Dedos na nuca.

A poesia é uma fatalidade do olhar. Basta poucos segundos e ela se revela, para então se esconder novamente atrás da pressa, do tédio, do desencanto, do hábito, do medo do ridículo que paralisa todos nós. Eu hoje não vim para escrever, vim para estimular o mistério.


O lugar onde eu mais aprecio estar é o vasto e arejado jardim do coração tranquilo. Nele, não sinto necessidade de entender coisa alguma.