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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Mente calma


Não, hoje não vou me preocupar. Acordei tão cedo e fiquei surpresa com o nevoeiro aqui em Tubarão - coisa que não se vê com frequência - e pude ver os primeiros raios solares refletidos nos vidros das casas e edifícios, dando a eles uma coloração rósea que deixou a minha rua com uma cara diferente da que ela costuma ter. Sei o que significa essa percepção apurada, logo no amanhecer. Designa-se poesia. Havia na minha rua uma poesia discreta. Uma poesia com a qual nossos olhos desacostumaram.

Quando minha mente está calma, serena, eu acesso uma confiança que é descanso e proteção. Uma fé genuína na preciosidade da vida. Sinto que tudo em mim se reorganiza, silenciosamente, o tempo todo. Minha alma recolhida me permite sentir com mais clareza e nitidez a sabedoria que envolve o mundo.

Quero encontrar, sim. Quero ser atraída por essa poesia que rege a vida, eu sei que posso achá-la. Já consigo vê-la na lombadas dos livros dispostos nas estantes errantes, inúmeros, um ao lado do outro, compondo um mosaico de cores e possibilidades. E vejo também na xícara do cafezinho, a louça branca, ao lado do jornal aberto, em cima da mesa, e um copo d'água, os três em colóquio matinal, clássicos do cotidiano. Sim, me disponho a sentir. Ali: a poesia da caixa de fósforo, quietinha, largada no canto da cozinha. Da mulher passando batom na fentre do espelho, fingindo despertar uma superioridade incomum.

A letra caprichada na folha da agenda, onde se descortinam os compromissos do dia. A fila de táxi no ponto, enquanto os motoristas conversam e fumam aguardando os passageiros. O carrinho do supermercado esquecido no estacionamento depois que todos se foram, abandonado na noite. Os cachos negros que estão no chão de um salão mixuruca, onde alguém cortou o cabelo e se arrependeu. A poesia oculta, não é tão oculta assim, ela é dissimulada.

Um varal com roupas puídas, penduradas numa janela de um edifício antigo. A torcida de um estádio explodindo ao ver entrar seu time em campo. Duas adolescentes de cabelos longos cochichando e rindo à saída do cursinho. O olhar perdido da mulher dentro do ônibus. Um guarda-chuva preto. Sua amiga que piscou o olho pra você lá do outro lado da festa, o afeto atravessando o salão e desviando dos convidados que separam vocês duas. A chama da vela que balança porque você está gargalhando. O casal que caminha na noite escura, agasalhados e agarrados, achando que ninguém os vê. Um resto de bolo dentro da geladeira.

O canhoto do cartão de embarque no fundo da bolsa. A almofada que caiu do sofá da varanda por causa do vento. O vento no rosto. O vapor que embaçou o espelho do banheiro depois do banho. A mochila em cima da cama. Alguém dormindo. Um colo para recostar. Um afago. Dedos na nuca.

A poesia é uma fatalidade do olhar. Basta poucos segundos e ela se revela, para então se esconder novamente atrás da pressa, do tédio, do desencanto, do hábito, do medo do ridículo que paralisa todos nós. Eu hoje não vim para escrever, vim para estimular o mistério.


O lugar onde eu mais aprecio estar é o vasto e arejado jardim do coração tranquilo. Nele, não sinto necessidade de entender coisa alguma.

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