Ontem fui ao cinema com meus pais para assistir a Shrek Para Sempre, e pelas risadas deles, posso dizer que as críticas em relação ao filme não devem ser tão dignas de considerações relevantes. Nós nos divertimos muito. É sempre muito prazeroso olhar dissimuladamente para meus pais - de mãos dadas no cinema (é o ápice do romantismo) e rindo feito crianças -, é sério.
Sim, pode ser piegas para alguns, mas mãos dadas são de um valor inestimável para essa pessoa aqui. Eu fico inteiramente estupefata observando meus pais trocarem tanto afeto mesmo diante de inúmeras situações caóticas do nosso inescrupuloso mundo, manter um espírito ávido e de uma pureza ingênua me faz perceber o que realmente importa. Sim, amor que é amor está representado por algo muito mais simples, sutil, barato e íntimo: os dedos entrelaçados no escuro do cinema. De mãos dadas se constrói uma relação. É esta forma brejeira de intimidade que falta nas atuais relações: dar-se as mãos. A mais tórrida aproximação de corpos, um ato realmente subversivo para alguns: unir as mãos como dois namorados. Está distante de ser uma representação pública de amor, é um carinho privado, ninguém está testemunhando (só eu, claro, mas eles não sabem), as pessoas estão todas de olho na tela e meus pais também, contudo seguros um no outro por meio do enlace que, à luz do dia, seria pra lá de corriqueiro, um simples hábito sem maior significância, mas que em um ambiente dividido com estranhos, no escuro, torna-se uma forma particular e um flerte irresistível de cumplicidade. Esse gesto mundano e trivial, quando perdido, quando não mais é feito, é porque o amor se findou e o casal não foi avisado. Confesso que fico derretida quando vejo mão entrelaçadas, é a declaração mais terna e espontânea.
Ah, preciso falar do filme. Estava empolgada com o namorico de meus pais, mas vamos relatar o meu divertimento de domingo. Crise de meia idade? É, ela não poupa nem ogros. Depois de três filmes, nos quais Shrek troca sua liberdade - leia-se faculdade de fazer ou de não fazer qualquer coisa, o que pactua mais adequadamente com nosso querido ogro - por mulher, filhos e responsabilidades Shrek chega a Shrek Para Sempre, com dificuldades de se reconhecer. Para sorte do monstro ( e de seus roteiristas preguiçosos), Frank Capra inventou a solução para esse tipo de problema mais de sessenta anos atrás, com A Felicidade Não Se Compra. Graças a um acordo com o duende Rumpelstiltskin, o protagonista ganha 24 horas para reviver seus tempos de solteirão - e também para descobrir que o reino Tão Tão Distante - seria horrível se ele jamais tivesse existido. Um filme que trata do passado de Shrek, uma maneira triste de um ogro adorável se despedir, pois é o último filme, como muitos já sabem. Neste lastimável mundo 'novo', você vai se deliciar com o Gato de Botas gordo e mimado, além do já conhecido sotaque espanhol canastrão, um burro que nunca se apaixonou pelo dragão fêmea, ah, vamos falar dragoa mesmo, é mais divertido; e Fiona, solitária, guerreira e lidera um bando de ogros rebeldes. Temos até um ogro gay e que cozinha tapioca, achei ultramoderno, uma ironia pop. Então, o ogro tem que corrigir os erros e voltar ao normal tentado resgatar o amor de sua antiga esposa Fiona.
A premissa é ótima, as piadas foram interessantes, mas as melhores realmente ficaram por conta da interação com personagens secundários como Gato e o Burro. A despedida do grande ogro não é tão apoteótica, é mais melancólica, porém ele sempre será o maioral. Eu recomendo, aliás recomendaria quantos filmes fossem produzidos com Shrek, que agora desperta aventuras romanescas entre meus pais.

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